terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ano dez.


Começar o ano com o pé esquerdo não significa que o restante dele será ruim. Ou que se começá-lo em casa, irá passar a maioria dos seus dias trancado. Pensa-se numa noite na qual quando o ponteiro marcar zero hora, a alegria salta do peito de forma estonteante quanto o colorido do céu oferecido pelos fogos, abraços grátis vem à tona, brindamos, pulamos sete ondas e fazemos várias atividades supersticiosas. As mulheres usam calcinhas de cores que dêem sorte naquilo que desejam, seja amor ou dinheiro. É a festa, ritual de passagem, de virada de página e de muito esquecimento também. Basta uma dose. Adeus injustiças, políticos corruptos, crimes, guerra e miséria. Depois tudo retoma, com um ar de mudança, inovações. Isso porém, não dura o ano inteiro. Um dia anula o outro. Está certo, não. Mas cada um tem sua particularidade. Você não pode mudar os imprevistos diários porém, é possível contorná-los, tirar os espinhos. Retrospectiva do que nos cerca deixo para os canais de televisão. A da minha vida, na memória. Vamos então, nos embriagar. Mas as doses precisam ser dez vezes maiores do que a do ano que se vai. Uns drinks de amor e paz, rápido! E é necessário perceber, que para mudar o mundo, deve-se olhar para o próprio umbigo e para o que está a nossa frente. E por fim: "eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo. E com os que erram feio e bastante, que você consiga ser tolerante".


Um ano diferente e feliz, para todos que me lêem.

Injustiça Globalizada.

"Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A queda.

- Estou quase chegando as nuvens.
- Já fui até lá, é realmente belo.
- Você gostou da sensação?
- Foi uma das coisas mais lindas que me aconteceram.Porém, existe o
momento em que é necessário pular, não se pode ficar lá eternamente.
- E quando chegar a hora de eu fazer o mesmo?
- Jogue-se, mas não tenha medo da queda, existe curativo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Carta ao papai noel.


Querido velhinho denominado de Papai Noel, envio esta carta para ti, um remetente que muitos depois de certa idade dizem que nem sequer existe, ao endereço onde talvez, não haja correios e esse pedaço de papel com letras caprichadas nunca chegará. Mesmo assim, não tiro meu compromisso, pois você é um dos poucos que está ao alcance de todos os povos, cores e classes. Um dos poucos capazes de trazer sorrisos e esperanças de um mundo mágico e melhor. Está presente em milhões de corações, ao redor do mundo. Isso tudo parece tão lindo e comovente, não é? Sinto dizer que se trata apenas de aparências e poucos dias no ano. Você deveria existir durante os 365 anuais e não só no período em que se recebe o décimo terceiro salário. Bem, deixemos para lá. O que eu quero dizer, é que esse ano, não quero presentes. Exatamente, pode poupar seu dinheirinho, sei como é difícil ser aposentado. Compre o presente da sua esposa, dos seus netinhos e as outras crianças sei exatamente o que elas querem. Então você não sabe? Pois pronto. Fui perguntar a milhares delas, viajei por ai para descobrir, ao longo desse ano. "Vamos supor que existem bônus para você, e estes são convertidos em sonhos em vez de simples presentes, o que você pediria?". Escutei das mais variadas respostas: Lucca sonhava com sua casa feita de chocolate, Jamile com um simples prato de comida, Beatriz sonhava em ter muitos amigos, enquanto Rafaela queria um simples abraço, Caio queria que sua mãe trabalhasse menos e te desse mais amor, Matheus que seu pai conseguisse um emprego para comprar o que precisavam, Hassin pedia paz mundial e Pitoco, o fim da guerra do trafico. Peço-te paz, amor, o fim do egoísmo humano, justiça, saúde, o exterminar o abandono, matar a fome, emprego, educação, esperança, sorrisos, sinceridade, amizade, compreensão, fraternidade, compaixão, entre tantos outros valores. Seria capaz de distribui-los? Creio eu que não. Essa missão digamos que é quase impossível, por sermos tão (des) humanos e estarmos vivendo a era do (des) amor. Mas se cada pessoa, cidadão, vizinho, irmão, habitante desse planeta, fizer um "tiquinho" podemos fazer olhos mortos se transformarem em olhos brilhantes como estrelas. Ajude-me a fazer esse pouquinho. Por favor! Nem é tão complicado assim... Se eu estivesse te pedindo um sapato Prada ou Brad Pitt aqui em casa, ai sim seria difícil. Juro que tentei ser o melhor possível esse ano, se fizer o que lhe peço, tentarei ser melhor ainda e te presentearei com bombons de chocolate, feitos com minhas próprias mãos e te farei companhia. Pense com carinho! Estou esperando resposta.

Beijos na bochecha direita e um abraço apertado.

De alguém que ainda acredita na sua existência e não deixa jamais,
o espírito de renovação morrer, em algum lugar desse universo tão imenso.

Feliz Natal!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ai se sêsse...

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

Cordel do Fogo Encantado recita Zé da luz.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Coração de papel.


Giz vermelho, uma tesoura, um pedaço de papel em branco e uma menina cheia de amor. E assim resolveu fazer um desenho, uma simbologia para o sentimento que transbordava dentro de si. Tentou rabiscar similar aos desenhos dos quais observava. Surgiu logo, um coração de papel. Resolveu guardá-lo, na sua gaveta. Nunca o jogou fora. Os anos passaram rapidamente, era nítida sua mudança de menina para moça, de moça para mulher. Seu desenho também estava mudando, ficando mais abarrotado, a cada decepção que sofria, estava cortado em pedacinhos e perdendo toda sua pureza. Decidiu usar cola e giz, para reconstituí-lo. Continuou realizando este ritual por um bom tempo. Porém, certo dia se cansou. Pegou aquele coração todo remendado e jogou fora. Arrependeu-se. Desenhou outro, para ocupar o lugar. Este, estraçalhado, confuso, apaixonado, picotado, esquecido, pisoteado, foi reconstituído mais outras vezes, jogado fora e substituído. Seguia sempre desse modo. Se parasse para juntar os retalhos, os pedacinhos, mostraria como ele viveu e morreu, inúmeras vezes. Insistindo em sobreviver sempre, nos corredores ou em nossas gavetas. Só no dia que nós decidimos pegá-lo e enterrá-lo, que ele vai desaparecer. Ai pronto. Era uma vez, o amor. (e o coração, de papel!)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Seu pai é padeiro?


Ela era acostumada as chamadas cantadas de pedreiro, por causa da sua beleza. Sentia que o mundo estava todo aos seus pés, embora esse estado te causasse náuseas. Não tinha costume algum com acontecimentos corriqueiros ou de fato, achava que sabia muito, quando na verdade, desconhecia o mundo e a interpretação correta das palavras. Acontece que todos os dias, a moça se sentava no mesmo banco em frente a padaria e ficava lá durante horas, levantando-se somente para buscar doce no estabelecimento o qual o bom cheiro incendiava os arredores. Foi aí que noutro dia sentada, passa um moço não muito bonito porém com aspecto de bem criado. Olhou para a moça distraída. E como também vivia por ali observando os passos de quem ia e vinha, resolveu perguntar:

- Seu pai é padeiro?

A moça ficou ofendida, achou que ele estava dando-lhe uma cantada e deu um tapa na face do rapaz.

Mas sim, o pai dela era padeiro.