segunda-feira, 25 de outubro de 2010

New York. Maio de 1995.

Caminhava sozinho, um senhor corcunda e feio, que já passava do prazo de validade e não tinha um vintém. Deu de repente, um forte vento, justamente no momento que uma granfina abria sua carteira e tiraria uma nota de 100 dólares, caindo esta, sob os pés daquele velho esfarrapado que mencionei antes. Ele olhou, sentiu o cheiro, o gosto e ficou com água na boca, só em pensar em uma semana de refeição. E pensou, pensou... viu a mulher se distanciar, perdendo um dinheiro que falta nenhuma a faria. Mas correu, com passos de formiga, pois era o mais rápido que podia, para alcançá-la. Então a tocou no ombro, que virou com desprezo (desprezo este que passaria logo), entre-olharam, ela, com olhos marcados, delineados, enquanto ele, com olhos cegos, baixos e fundos. Uma lágrima caiu. Depois, duas, três, quatro e assim sucessivamente. Ergueu a mão enrugada para entregar a nota, num sorriso quase que desdentado. Acontece que aquela que parecia só se importar com as últimas tendências internacionais de moda, o reconheceu: era seu pai, que havia desaparecido há mais de 15 anos.